Para Haroldo Augusto Filho, executivo com atuação em negociação empresarial, gestão de conflitos e estruturação de soluções em ambientes corporativos complexos, a resistência à mediação em conflitos societários raramente tem origem numa avaliação racional do processo. Tem origem numa crença equivocada de que participar de uma mediação significa, desde o início, abrir mão de algo. Essa confusão entre mediação e capitulação é uma das que mais custa para empresas e sócios que precisariam de um processo estruturado e continuam sem ele por razões que não resistem a uma análise mais cuidadosa.
Leia a seguir para entender onde essa crença se origina e por que ela não corresponde ao que a mediação empresarial é na prática.
De onde vem a ideia de que mediar é enfraquecer a própria posição?
A associação entre mediação e fraqueza tem raízes em como o conflito é culturalmente tratado nos ambientes corporativos. Em organizações onde resistência é valorizada como sinal de firmeza, qualquer movimento em direção ao diálogo estruturado pode ser interpretado como recuo, mesmo quando esse movimento é, na prática, a forma mais eficaz de proteger os próprios interesses. Esse enquadramento cultural cria um paradoxo: quanto mais uma parte precisaria de mediação, mais ela resiste a ela, porque a resistência virou símbolo de posição forte.
Na leitura de Haroldo Augusto Filho, esse paradoxo se sustenta porque as partes confundem o processo com o resultado. Aceitar participar de uma mediação não significa concordar com nenhuma solução específica. Significa aceitar um processo em que qualquer solução só se concretiza se ambas as partes concordarem com ela. Essa distinção é central: a mediação não impõe nada. Ela cria as condições para que as partes construam juntas o que não conseguiram construir sozinhas.
O que a mediação empresarial é de fato e o que ela não é?
Mediação empresarial é um processo voluntário, conduzido por um terceiro neutro, em que as partes mantêm controle total sobre o resultado. O mediador não decide, não arbitra e não impõe. Seu papel é facilitar a comunicação entre as partes, de forma que cada uma consiga entender o que está realmente em jogo para a outra, e que ambas consigam construir, a partir desse entendimento, uma solução que nenhuma delas teria chegado sozinha.
O que a mediação não é: não é arbitragem, em que um terceiro decide pelo resultado; não é conciliação judicial, onde há um processo formal e um juiz monitorando; e não é negociação direta, em que as partes conversam sem estrutura ou facilitação. Haroldo Augusto Filho frisa que boa parte da resistência à mediação empresarial vem de quem a confunde com esses outros processos, especialmente com a arbitragem, e que teme que participar signifique entregar o controle do desfecho a alguém de fora. Na mediação, esse controle permanece inteiramente nas mãos das partes, do início ao fim.

Por que ceder dentro de uma mediação é diferente de ceder fora dela?
Concessões feitas dentro de um processo de mediação têm uma natureza distinta das concessões feitas sob pressão direta da outra parte. Fora da mediação, ceder costuma ser interpretado como sinal de que a posição era mais fraca do que parecia, e cria um incentivo para que a outra parte pressione mais. Dentro da mediação, concessões fazem parte de um processo estruturado de troca, em que cada movimento de uma parte é respondido por um movimento equivalente da outra, dentro de um contexto que o mediador ajuda a equilibrar.
Como pondera Haroldo Augusto Filho, essa diferença de contexto muda completamente o significado de cada concessão. Uma parte que abre mão de um ponto dentro de uma mediação não está sinalizando fraqueza. Está participando de um processo de troca que, se bem conduzido, produz um acordo em que ambas as partes abriram mão de algo que consideravam secundário para proteger o que consideravam essencial. Essa lógica de troca estruturada é o que torna os acordos de mediação mais duráveis do que os que surgem de negociações diretas sob pressão.
Quando a resistência à mediação custa mais do que o conflito original?
Há um custo que raramente é calculado por quem resiste à mediação: o custo de manter o conflito sem tratamento adequado enquanto o processo de resistência se prolonga. Esse custo se manifesta em tempo de gestão consumido pelo desgaste entre as partes, em decisões estratégicas que travam porque dependem de alinhamento entre sócios em conflito, e em oportunidades que se perdem porque a organização está parcialmente paralisada por uma disputa que poderia ter sido resolvida em semanas com o processo certo.
Haroldo Augusto Filho aponta que, na maioria dos casos que acompanha, o custo acumulado do período de resistência à mediação supera, com folga, qualquer concessão que a parte resistente temia ter que fazer dentro do processo. Isso não significa que a mediação sempre produz o resultado ideal para todas as partes. Significa que o custo de evitá-la, somado ao custo de manter o conflito ativo, quase sempre supera o custo de participar de um processo estruturado de resolução, mesmo quando esse processo exige abertura para soluções que não eram a primeira escolha de nenhuma das partes.
O que muda quando as partes chegam à mediação sem a crença de que mediar é ceder?
Partes que chegam à mediação entendendo o que o processo realmente é e o que ele não é, participam de forma completamente diferente das que chegam com a crença de que estão cedendo ao aceitar o processo. As primeiras usam o espaço da mediação para explorar soluções que não seriam possíveis numa negociação direta. As segundas chegam na defensiva, tratando cada etapa do processo como uma ameaça à posição que precisam proteger, e frequentemente comprometem o resultado antes mesmo de a primeira sessão terminar.
Segundo Haroldo Augusto Filho, preparar as partes para o processo antes de ele começar é, por essa razão, tão importante quanto conduzir bem as sessões em si. Uma parte que entra na mediação entendendo que o controle do resultado permanece com ela, que nenhuma concessão é definitiva antes do acordo final ser assinado, e que o processo existe para ampliar as opções disponíveis e não para reduzir a posição de ninguém, está em condições completamente diferentes de aproveitar o que a mediação tem a oferecer. Essa preparação não elimina a tensão natural do processo, mas retira dela a camada de desconfiança que, quando presente, compromete qualquer tentativa de construção conjunta de solução.