Tiago Oliva Schietti, empresário do setor cemiterial e funerário, observa uma frente de expansão de serviços que altera a fronteira tradicional de atuação das funerárias brasileiras: a oferta de apoio psicológico estruturado às famílias, não apenas no momento do óbito, mas em diferentes etapas do processo de luto, um movimento que amplia significativamente o papel dessas empresas na vida das pessoas atendidas.
Esse movimento reflete uma mudança mais ampla na forma como o setor encara sua própria função. Por muito tempo, o relacionamento entre funerárias e famílias se limitava à execução de processos logísticos relacionados ao sepultamento ou cremação, sem incorporar acompanhamento emocional estruturado. A introdução de serviços de apoio psicológico representa um salto qualitativo nessa relação, reconhecendo que o momento da perda exige cuidado que vai além da organização de uma cerimônia.
A questão que orienta essa expansão de serviços é direta: até que ponto uma empresa funerária deve, e pode, assumir um papel de cuidado emocional que tradicionalmente pertencia a profissionais de saúde mental, e como estruturar esse serviço de forma responsável?
Da logística do velório ao acompanhamento emocional contínuo
Empresas do setor têm passado a oferecer sessões de apoio psicológico, individuais ou em grupo, destinadas a familiares enlutados, em parceria com profissionais de psicologia especializados em luto. Esse tipo de serviço costuma ser oferecido nas semanas seguintes ao óbito, período em que o suporte emocional tende a ser mais necessário e, ao mesmo tempo, mais escasso para muitas famílias.
Tal como informa Tiago Oliva Schietti, esse tipo de acompanhamento amplia a percepção de valor do serviço prestado, criando vínculos que vão além da transação comercial pontual historicamente associada ao setor.
Grupos de apoio ao luto ganham espaço físico e digital
Além do atendimento individual, grupos de apoio ao luto, presenciais ou realizados por plataformas digitais, começam a ser oferecidos por empresas que buscam ampliar seu papel social além da prestação direta de serviços funerários. Esses grupos permitem que famílias compartilhem experiências com outras pessoas que vivenciam processo semelhante, em um formato que combina suporte profissional e troca entre pares.
Na avaliação de empresários do segmento funerário, como Tiago Oliva Schietti, esse tipo de iniciativa fortalece a relação de longo prazo entre empresa e família, ao demonstrar cuidado que se estende muito além do momento pontual da cerimônia de despedida.

Como a capacitação em primeiros socorros emocionais pode transformar o atendimento a famílias em luto?
A oferta de apoio psicológico estruturado exige também capacitação específica das equipes que têm contato direto com famílias em momentos de crise. Treinamentos voltados para identificação de sinais de luto complicado, técnicas básicas de acolhimento emocional e encaminhamento adequado a profissionais de saúde mental têm se tornado parte da rotina de capacitação em empresas que investem nessa frente.
Esse tipo de preparo profissional reduz o risco de que colaboradores, sem formação adequada, tentem oferecer suporte emocional além de sua competência técnica, ao mesmo tempo em que melhora a capacidade da empresa de identificar quando uma família precisa de encaminhamento especializado.
Em linha com o que expõe o empresário do setor cemiterial e funerário, Tiago Oliva Schietti, essa capacitação costuma incluir simulações práticas de atendimento, nas quais os colaboradores são expostos a cenários que reproduzem situações reais de alta sensibilidade emocional, como o atendimento a familiares em estado de choque ou a condução de conversas sobre decisões práticas durante um momento de luto agudo. Esse tipo de treinamento vivencial tende a ser mais eficaz do que abordagens puramente teóricas, já que prepara a equipe para reagir de forma adequada mesmo sob a pressão emocional inerente ao contexto de trabalho.
Os limites éticos de funerárias atuando no campo emocional
A expansão desse tipo de serviço também levanta questões éticas relevantes sobre os limites de atuação de empresas funerárias no campo da saúde mental. Especialistas do setor reconhecem a necessidade de parcerias formais com profissionais licenciados, evitando que o suporte emocional oferecido pela empresa substitua, de forma inadequada, acompanhamento psicológico ou psiquiátrico especializado quando necessário.
Esse cuidado na estruturação do serviço tende a se tornar cada vez mais relevante conforme a oferta de apoio psicológico se expande, exigindo protocolos claros sobre quando encaminhar uma família a atendimento profissional externo.
Esse tipo de protocolo costuma incluir critérios objetivos para identificar sinais de luto complicado, como isolamento social prolongado, dificuldade severa para retomar rotinas básicas ou pensamentos recorrentes sobre a própria morte, que indicam a necessidade de encaminhamento imediato a um profissional habilitado, e não apenas a continuidade do suporte oferecido pela equipe da funerária. A definição clara dessas fronteiras evita que a empresa assuma, ainda que involuntariamente, uma responsabilidade clínica que não está preparada para sustentar, ao mesmo tempo em que preserva a confiança da família no cuidado oferecido durante todo o processo.
De que forma a transformação do setor funerário pode impactar as famílias enlutadas?
A incorporação de serviços de apoio psicológico ao portfólio das funerárias brasileiras sinaliza uma transformação profunda na forma como o setor encara sua própria relevância social. Esse movimento, segundo Tiago Oliva Schietti, amplia a função dessas empresas para além da logística funerária, posicionando-as como agentes de cuidado em um dos momentos mais delicados da vida das famílias.
Nos próximos anos, a capacidade de oferecer esse tipo de acompanhamento de forma estruturada e eticamente responsável deve se tornar um diferencial competitivo cada vez mais valorizado, em um mercado que aprende, gradualmente, que cuidar de quem fica também é parte essencial do serviço funerário.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez.