Tal como apresenta a Sigma Educação, o dado mais revelador da educação brasileira em 2026 não está nas avaliações de desempenho nem nos índices de evasão. Está numa assimetria silenciosa: sete em cada dez estudantes do ensino médio com acesso à internet já utilizam inteligência artificial generativa para fazer pesquisas escolares, segundo a 15ª edição da pesquisa TIC Educação, do Cetic.br, divulgada em setembro de 2025. No entanto, apenas 32% desses alunos afirmam ter recebido alguma orientação nas escolas sobre como usar essas ferramentas de forma segura e responsável. A tecnologia chegou antes da pedagogia, e a lacuna entre os dois está crescendo.
O cenário não é exclusivo do Brasil, mas aqui ele ganha contornos particularmente urgentes. A pesquisa ouviu mais de 7.400 alunos em 1.023 escolas públicas e privadas, em áreas rurais e urbanas, entre agosto de 2024 e março de 2025. O que os dados mostram é que o ChatGPT, o Gemini e ferramentas similares já fazem parte da rotina de pesquisa de uma geração inteira, independentemente do que os adultos ao redor acham disso. A questão, portanto, deixou de ser se a IA vai entrar nas salas de aula brasileiras. Ela já entrou, pela porta dos fundos, no celular dos alunos. O que falta, e o que esse número expõe com clareza, é que a escola ainda não elaborou uma resposta à altura do fenômeno. Continue lendo para saber mais!
Quando o aluno sabe mais do que o professor sobre a ferramenta que usa
O paradoxo mais incômodo revelado pelos dados é este: os estudantes dominam o acesso, mas desconhecem os limites. Usar o ChatGPT para resumir um texto ou gerar uma resposta rápida virou hábito. O que raramente acontece é a reflexão sobre o que aquela resposta representa: por que a IA chegou àquela conclusão, quais fontes alimentaram o modelo, onde estão os vieses e quando o resultado pode estar simplesmente errado.
Esse é o espaço que a orientação escolar deveria ocupar, e que, na maior parte das vezes, permanece vazio. Segundo a Talis 2024, pesquisa coordenada pela OCDE, 64% dos professores brasileiros afirmaram não ter o conhecimento e as habilidades necessárias para ensinar com IA. Outros 60% disseram que suas escolas não possuem infraestrutura adequada para esse tipo de prática. O adulto responsável por guiar o jovem no uso ético dessas ferramentas está, em boa medida, tão desorientado quanto ele. É nesse vácuo que a IA vira atalho, e não recurso de aprendizagem.
O que está por trás dos 32% que receberam orientação?
Quando a pesquisa do Cetic revela que apenas 32% dos estudantes do ensino médio receberam alguma orientação sobre o uso de IA, esse número pede leitura cuidadosa. Orientação não equivale a uma abordagem pedagógica estruturada, nem a uma disciplina ou módulo específico. Pode significar uma conversa pontual, uma advertência sobre plágio ou uma menção rápida em reunião de pais. O que a pesquisa não consegue capturar, mas o que a realidade das escolas sugere, é que essa orientação raramente vem acompanhada de um projeto intencional de letramento crítico em IA.
Nesse sentido, sob a ótica da Sigma Educação, o dado real pode ser ainda mais preocupante do que aparenta. Porque o problema não é apenas a ausência de instrução, mas a ausência de uma intenção pedagógica clara sobre o que se quer formar quando um aluno usa IA. Um estudante que aprende a questionar fontes, verificar informações e compreender como os algoritmos funcionam está sendo preparado para o mundo. Um estudante que apenas aprende a copiar respostas geradas por máquina não está.

A regulação tentou avançar, mas o chão de escola ainda está longe
O contexto normativo evoluiu nos últimos anos. Em 2023, foi sancionada a Lei 14.533, que instituiu a Política Nacional de Educação Digital. Em janeiro de 2025, entrou em vigor a Lei 15.100, que restringe o uso de dispositivos móveis nas escolas. A Resolução nº 2/2025 do Conselho Nacional de Educação definiu que, a partir de 2026, a implementação de currículos sobre uso de dispositivos digitais e educação midiática passa a ser obrigatória. O Piauí tornou-se o primeiro território das Américas a incluir IA como disciplina obrigatória no currículo do ensino fundamental e médio.
Mas existe uma distância considerável entre o que os documentos oficiais estabelecem e o que acontece dentro das salas de aula. A regulação é necessária, mas não suficiente. A formação continuada dos professores segue sendo o elo mais frágil dessa cadeia. Dados do próprio TIC Educação mostram que, entre os docentes que participaram de desenvolvimento profissional recente, 67% relataram que a atividade contribuiu para orientar melhor os alunos no uso das tecnologias digitais. O caminho está mapeado. O que falta é escala.
O risco de uma geração que usa IA sem entendê-la
Há um diagnóstico que circula com crescente frequência entre educadores e pesquisadores da área: se a escola não intervém com intencionalidade, o uso da IA tende a se tornar padronizado. O aluno faz a redação com IA, o professor corrige com IA, e ninguém, na ponta desse processo, desenvolve pensamento crítico ou capacidade real de aprendizagem. A tecnologia passa a ser um acelerador de respostas, não um instrumento de formação.
Conforme aponta a Sigma Educação ao acompanhar esse debate, o que está em jogo não é apenas rendimento escolar. É a capacidade de uma geração de se relacionar de forma autônoma e crítica com informação, numa era em que algoritmos cada vez mais determinam o que é visto, lido e acreditado. Pesquisa do Observatório Fundação Itaú com o Datafolha mostra que mais de 80% dos brasileiros acreditam que estudantes e professores devem aprender a usar a IA de maneira consciente e responsável. A opinião pública já chegou a essa conclusão; e o sistema educacional ainda está construindo o caminho.
O que vem depois do proibir e do liberar: a escola como mediadora
O debate sobre IA nas escolas ficou preso, por muito tempo, num falso dilema entre proibir e liberar. A proibição ignora a realidade: os alunos usam as ferramentas fora da escola de qualquer maneira, e a restrição dentro não produz letramento. A liberação irrestrita, por sua vez, sem orientação pedagógica, apenas transfere para o algoritmo uma responsabilidade que é da escola.
O que começa a emergir, tanto nas experiências internacionais quanto nas iniciativas mais avançadas dentro do Brasil, é um terceiro caminho: a escola como mediadora ativa. A Sigma Educação explica que isso implica formar professores para entender o funcionamento básico das ferramentas de IA, desenvolver atividades que exijam uso consciente e reflexivo dessas tecnologias e construir junto com os alunos um repertório crítico sobre fontes, vieses e limites dos sistemas generativos. Japão, China e Estônia já aprovaram políticas nacionais que tratam o uso da IA como parte estruturante do processo de aprendizagem, e não como apêndice digital.
Quando 70% viram um ponto de partida, e não apenas um alerta
Os 70% de alunos do ensino médio que já usam IA nas pesquisas escolares podem ser lidos de duas formas. Como um sinal de alarme sobre a despreparação do sistema educacional, que é legítima. Ou como ponto de partida para uma transformação que, se conduzida com intencionalidade, pode ser significativa.
A segunda leitura exige mais do que medidas emergenciais. Exige que as escolas, as redes de ensino e os atores do ecossistema educacional, entre eles a Sigma Educação, reconheçam que a questão não é mais tecnológica. É pedagógica, ética e, fundamentalmente, política no sentido mais amplo da palavra: diz respeito ao tipo de cidadão que se quer formar. Uma geração que sabe usar IA com criticidade não é ameaça ao pensamento. É, possivelmente, uma das formas mais sofisticadas de exercê-lo.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez