Presidente da FIFA propõe revisão independente da governança da entidade enquanto dirigentes europeus questionam sua condução e pedem mudanças.
A FIFA voltou ao centro de uma disputa política no futebol internacional nesta semana. Em carta enviada aos presidentes das 211 associações-membro da entidade, Gianni Infantino propôs uma revisão externa e independente do modelo de governança da organização, além de consultas com confederações, federações e outros representantes do futebol. A iniciativa ocorre depois da forte reação provocada pelo plano de criação de uma estrutura comercial que envolveria investidores privados e direitos comerciais da FIFA. (Reuters)
A proposta de reforma, entretanto, foi recebida com desconfiança por parte de dirigentes. O presidente da Federação Alemã de Futebol (DFB), Bernd Neuendorf, afirmou nesta terça-feira, 22 de setembro, que considera a carta uma estratégia relacionada à tentativa de Infantino de obter apoio para a eleição presidencial da FIFA prevista para março de 2027. A declaração representa uma das manifestações mais recentes de oposição dentro do futebol europeu. (Reuters)
Infantino propõe revisão da governança da FIFA
Na carta enviada aos dirigentes do futebol mundial, Infantino afirmou estar aberto a discutir mudanças na estrutura de tomada de decisões da FIFA. A proposta prevê que o Conselho da entidade avalie a contratação de uma revisão externa independente sobre o sistema de governança utilizado em grandes iniciativas estratégicas.
Entre os pontos que poderão ser analisados estão as funções do presidente, do Bureau do Conselho, do próprio Conselho e do Congresso da FIFA. O objetivo anunciado é avaliar como decisões de grande impacto podem ser tomadas com mais transparência e participação das diferentes partes envolvidas no futebol internacional. (Reuters)
Infantino também propôs consultas estruturadas com as seis confederações continentais, as associações-membro e outros grupos ligados ao futebol. Segundo a carta, as discussões deverão buscar formas de fortalecer os processos de decisão e melhorar a transparência e a prestação de contas dentro da organização. (ZDFheute)
A iniciativa ocorre após o abandono de um plano que previa a criação da chamada FIFA Forward Enterprise. A proposta envolvia a possibilidade de comercializar uma participação de 20% em direitos comerciais da entidade para investidores privados. O projeto encontrou resistência entre importantes confederações e acabou retirado em julho. (Reuters)
Dirigentes europeus questionam estratégia do presidente
A reação mais contundente à nova proposta veio da Alemanha. Bernd Neuendorf, presidente da DFB e integrante do Conselho da FIFA, declarou à Reuters que considera a carta de Infantino uma tentativa de recuperar apoio antes da eleição presidencial de 2027. Essa interpretação é uma avaliação política de Neuendorf sobre a motivação da iniciativa, e não uma conclusão independente sobre a intenção do presidente da FIFA. (Reuters)
Neuendorf também afirmou que a FIFA reconheceu a necessidade de mudanças, mas questionou se Infantino deveria conduzir esse processo. A posição do dirigente alemão está alinhada ao movimento de setores da UEFA que passaram a defender alterações na liderança e na estrutura de poder da entidade após a controvérsia envolvendo o projeto de investimentos privados. (Reuters)
A crise não começou com a carta enviada nesta semana. O projeto comercial retirado em julho provocou forte reação de confederações como UEFA, AFC e Concacaf. Segundo a Reuters, essas organizações questionaram a ausência de consultas prévias e algumas chegaram a defender mudanças na liderança da FIFA. (Reuters)
Nas últimas semanas, a oposição europeia ganhou novos contornos. A Federação Alemã já havia retirado apoio à candidatura de Infantino, enquanto outros países europeus também passaram a questionar sua permanência. O processo de escolha de um eventual candidato de oposição, contudo, ainda estava em desenvolvimento em 22 de setembro. (sportschau.de)
Eleição de 2027 aumenta a importância da disputa
A discussão sobre governança ocorre a poucos meses da eleição presidencial da FIFA, marcada para março de 2027. Infantino pretende buscar um novo mandato, enquanto dirigentes críticos discutem formas de modificar a estrutura de poder da organização e encontrar uma alternativa para a presidência. (Reuters)
O calendário torna as próximas reuniões especialmente relevantes. Segundo informações divulgadas pela imprensa alemã, propostas de mudança poderão ser encaminhadas ao Conselho da FIFA até 15 de outubro. Além disso, os membros da UEFA deverão discutir o cenário político da entidade em encontros previstos para outubro. (Reuters)
A própria FIFA afirma que as posições adotadas pelas associações-membro em propostas ou questões institucionais não deverão interferir no tratamento dado a cada federação. Infantino também afirmou estar disposto a ouvir diferentes posições e defendeu o diálogo entre os integrantes da organização, mesmo quando existem divergências. (Reuters)
Por enquanto, portanto, a principal disputa envolve dois movimentos simultâneos: de um lado, Infantino tenta abrir uma discussão formal sobre possíveis mudanças na governança da FIFA; de outro, dirigentes como Neuendorf interpretam essa iniciativa de maneira crítica e defendem alterações mais profundas na condução da entidade. O resultado desse embate deverá ficar mais claro à medida que avançarem as consultas, as reuniões das confederações e o processo eleitoral previsto para 2027.
Fontes:
- Reuters — FIFA’s Infantino letter is ploy for re-election, says German FA chief — repercussão da carta e declaração de Bernd Neuendorf em 22 de setembro.
- Reuters — Infantino says he is open to talks over FIFA reform — detalhes da proposta de revisão independente da governança.
- ZDF — Reformas na FIFA: Infantino mostra-se aberto ao diálogo — contexto da proposta e das reações da UEFA e Concacaf.
- Sportschau — Neuendorf: “System Infantino” deve acabar — posicionamento anterior do presidente da Federação Alemã.
- Folha de S.Paulo — FIFA analisará plano abortado de venda de direitos — histórico do projeto comercial que desencadeou parte da atual crise.