Autoridades de Buenos Aires receberão vídeos de possíveis atos discriminatórios durante o jogo desta quarta-feira em La Plata.
Autoridades da província de Buenos Aires adotaram uma medida especial de segurança para o confronto entre Estudiantes e Corinthians, nesta quarta-feira, 9 de setembro, pelas quartas de final da Copa Libertadores. Foi disponibilizado um canal para que torcedores possam encaminhar denúncias sobre comportamentos inadequados ocorridos durante a partida, com atenção especial para episódios de racismo e discriminação. (UOL)
O jogo acontece no Estádio Jorge Luis Hirschi, em La Plata, às 21h30 no horário de Brasília, e corresponde à partida de ida das quartas de final. Além das medidas esportivas tradicionais, as autoridades argentinas organizaram uma operação específica para os torcedores corintianos que viajaram ao país, incluindo deslocamento em comboio até o estádio. (UOL)
A preocupação não surge sem antecedentes. O estádio do Estudiantes registrou um episódio de racismo contra brasileiros em 2024, enquanto o próprio Corinthians denunciou recentemente ofensas racistas direcionadas ao goleiro Hugo Souza durante uma partida contra o Rosario Central, também na Argentina. Esse histórico ajuda a explicar por que prevenção, identificação dos responsáveis e produção de provas passaram a integrar a operação desta quarta-feira. (UOL)
Como funcionará o canal de denúncias durante Estudiantes x Corinthians
O mecanismo criado pelas autoridades funcionará pelo WhatsApp e receberá imagens relacionadas a condutas inadequadas durante o confronto. A orientação é que eventuais ocorrências sejam registradas em vídeo, permitindo que as autoridades tenham material para analisar e, quando possível, identificar os envolvidos. Mensagens de áudio e chamadas não serão recebidas pelo canal. (UOL)
A iniciativa não está restrita exclusivamente ao racismo. Outros comportamentos considerados inadequados também poderão ser comunicados, embora a prevenção de manifestações racistas e discriminatórias esteja entre os principais objetivos da operação. O uso de imagens pode facilitar o cruzamento das denúncias com câmeras de segurança instaladas no estádio.
O Corinthians também decidiu acompanhar seus torcedores mais de perto. O diretor jurídico Pedro Soares foi designado para estar junto à operação na Argentina e prestar suporte aos brasileiros durante a passagem por La Plata. As orientações sobre segurança e o funcionamento do mecanismo de denúncias foram repassadas aos torcedores que viajaram para acompanhar a partida. (UOL)
Além disso, os corintianos com ingresso terão um ponto de encontro antes de seguirem para o estádio. A concentração foi programada para as 17h no horário argentino, com saída do comboio às 17h30 e acompanhamento das autoridades de Buenos Aires até o Jorge Luis Hirschi. (UOL)
A medida representa uma tentativa de agir de forma preventiva, em vez de depender exclusivamente da identificação dos responsáveis depois de um incidente. Com celulares e câmeras presentes em praticamente todos os setores dos estádios, vídeos produzidos pelos próprios torcedores podem funcionar como uma fonte adicional de evidências para investigações.
Casos anteriores aumentaram preocupação com racismo na Libertadores
O histórico recente envolvendo clubes brasileiros em partidas disputadas na Argentina é um dos principais componentes do contexto. Em abril de 2024, torcedores do Estudiantes foram filmados fazendo gestos racistas em direção a torcedores do Grêmio durante um jogo da fase de grupos da Libertadores no mesmo estádio que receberá Corinthians e Estudiantes nesta quarta-feira. (UOL)
Na ocasião, o Ministério de Segurança da Província de Buenos Aires informou que analisaria imagens das câmeras do estádio para tentar identificar os envolvidos. A apuração ficou sob responsabilidade da Agência para a Prevenção da Violência no Esporte (Aprevide), e o próprio Estudiantes foi chamado a colaborar com a identificação. (UOL)
O Corinthians também chega à partida depois de um episódio recente. Em agosto, durante o empate sem gols com o Rosario Central pelas oitavas de final da Libertadores, o goleiro Hugo Souza relatou ter recebido ofensas racistas vindas das arquibancadas. A reportagem do ge presente no estádio relatou ter presenciado xingamentos de teor racista direcionados ao jogador. (ge)
Hugo Souza comunicou o episódio à arbitragem durante o segundo tempo. O árbitro Andrés Matonte fez o gesto correspondente ao protocolo antirracista previsto para as competições da Conmebol. Posteriormente, o Corinthians publicou uma manifestação de repúdio e cobrou investigação e identificação dos responsáveis. (ge)
O Rosario Central apresentou sua própria versão do episódio. O clube argentino contestou a denúncia do goleiro e acusou torcedores corintianos de comportamentos discriminatórios e provocativos. A Conmebol posteriormente aplicou ao Rosario Central uma multa de US$ 100 mil, segundo informações publicadas antes do confronto desta quarta-feira. (UOL)
O Estudiantes, por sua vez, publicou na véspera do jogo uma manifestação oficial contra racismo, xenofobia e discriminação. O clube lembrou aos seus torcedores que manifestações discriminatórias podem gerar consequências não apenas para os indivíduos responsáveis, mas também para a própria instituição. (Estudiantes de La Plata)
Medida aproxima esporte, segurança pública e combate à discriminação
A criação do canal também transforma Estudiantes x Corinthians em uma pauta que ultrapassa as quatro linhas. A operação envolve autoridades públicas argentinas, órgãos de prevenção da violência esportiva, segurança no entorno do estádio, atuação dos clubes e aplicação das normas disciplinares da Conmebol.
Pelas regras destacadas pelo próprio Estudiantes, clubes podem ser responsabilizados pelo comportamento de seus torcedores. Manifestações discriminatórias podem resultar em multas a partir de US$ 100 mil, além de outras punições dependendo da gravidade ou da reincidência. Entre as possibilidades estão fechamento parcial do estádio, partidas com portões fechados e restrições à presença de torcedores. (Estudiantes de La Plata)
Essa responsabilização ajuda a explicar por que clubes e governos passaram a investir em mecanismos de prevenção e identificação. Uma manifestação racista individual pode provocar consequências esportivas, financeiras e institucionais para uma equipe inteira. Ao mesmo tempo, punições aos clubes não substituem a necessidade de identificar individualmente os responsáveis quando a legislação permitir.
O canal criado em Buenos Aires procura justamente reduzir essa dificuldade. Vídeos enviados por testemunhas podem ajudar a localizar o setor onde ocorreu um incidente e fornecer características dos envolvidos. Combinados às imagens internas do estádio, esses registros podem ampliar a capacidade de investigação das autoridades.
O futebol sul-americano enfrenta há anos o desafio de transformar campanhas contra o racismo em medidas capazes de produzir consequências concretas. Protocolos dentro de campo, multas, fechamento de setores e identificação de torcedores são algumas das ferramentas utilizadas. O desafio permanece em garantir que as regras sejam aplicadas de maneira rápida e consistente.
Nesta quarta-feira, a atenção esportiva estará voltada para a disputa por uma vaga na semifinal da Libertadores. Estudiantes e Corinthians entram em campo às 21h30 em La Plata, com o clube paulista tentando conseguir um resultado favorável antes do jogo de volta. (UOL)
Fora das quatro linhas, porém, a partida também funcionará como teste para uma estratégia diferente de prevenção. Ao oferecer aos torcedores um mecanismo direto para registrar possíveis episódios discriminatórios, as autoridades de Buenos Aires tentam transformar testemunhas em parte da estrutura de identificação de condutas inadequadas.
O sucesso da iniciativa dependerá não apenas da quantidade de denúncias, mas da capacidade de verificar os registros, identificar responsáveis e aplicar as medidas previstas quando houver comprovação. Em um continente que ainda registra episódios recorrentes de racismo nos estádios, o caso pode ajudar a mostrar se tecnologia, fiscalização e cooperação entre autoridades e clubes conseguem tornar a resposta mais rápida e efetiva.
Fontes:
UOL — Canal é criado para denúncias de racismo em Estudiantes x Corinthians
Estudiantes de La Plata — Manifestação oficial contra racismo e discriminação
ge — Hugo Souza relata ofensas racistas na Argentina
ge — Rosario Central apresenta sua versão sobre os incidentes