O mercado brasileiro de fusões e aquisições atravessa, como apresenta Pedro Daniel Magalhães ao observar a virada recente do setor, uma mudança de perfil que os números só confirmam: no primeiro semestre deste ano, o país registrou queda superior a 35% no número de transações na comparação anual, mas o capital mobilizado nessas operações cresceu. À primeira vista, os dois movimentos parecem contraditórios. Na prática, contam a mesma história sob ângulos diferentes: o mercado não perdeu apetite, apenas ficou mais seletivo sobre onde colocar o dinheiro.
O que os números escondem?
Fusão e aquisição, ou M&A na sigla em inglês, é o termo usado para operações em que uma empresa compra, incorpora ou se une a outra, seja para ganhar escala, seja para entrar em um novo mercado. Historicamente, o volume dessas operações costuma ser lido como termômetro de confiança econômica: mais negócios, mais confiança; menos negócios, mais cautela.
Só que o dado isolado de queda no número de transações conta apenas parte da história. O valor médio por operação subiu de forma expressiva no mesmo período, o que indica que o capital não recuou, apenas se concentrou em negócios maiores e mais estruturados. Investidores estratégicos e fundos de private equity, segundo dados recentes do setor, priorizaram ativos com escala já comprovada, margens saudáveis e governança organizada, em vez de apostar em um número maior de operações menores e mais arriscadas.
Menos negócios, mais critério
Essa concentração reflete uma postura mais criteriosa por parte de quem compra. Antes de fechar uma operação, compradores estão exigindo processos de due diligence mais aprofundados, com atenção redobrada a passivos ocultos, estrutura societária e conformidade regulatória. O tempo médio de negociação também tende a aumentar quando o escrutínio é maior, o que ajuda a explicar por que menos negócios estão sendo concluídos no mesmo intervalo de tempo.

Como executivo e advisory da área de finanças, Pedro Magalhães costuma apontar, quando comenta esse movimento, que negócios mais bem avaliados tendem a resistir melhor a ciclos de volatilidade macroeconômica, justamente porque passaram por um filtro mais rigoroso antes de sair do papel. Para empresas que buscam ser adquiridas ou receber um novo sócio estratégico, isso significa que estar com a casa em ordem deixou de ser diferencial e passou a ser pré-requisito.
O papel da base doméstica de investidores
Diferente de mercados vizinhos, mais dependentes de capital estrangeiro para movimentar suas operações de M&A, o Brasil mantém uma base relativamente robusta de compradores estratégicos locais, fundos de private equity nacionais e investidores institucionais domésticos. Essa característica confere ao mercado brasileiro certa estabilidade, mesmo em momentos de maior cautela global, algo que fica evidente ao comparar a desaceleração brasileira com a de outros países latino-americanos no mesmo período.
Setores como tecnologia e serviços digitais seguiram concentrando a maior parte das operações do semestre, reforçando uma tendência que já vinha se desenhando nos últimos anos: negócios ligados a receita recorrente e ativos digitais continuam atraindo interesse mesmo quando o apetite geral por transações diminui.
O que esperar para os próximos negócios?
A leitura que Pedro Daniel Magalhães considera mais útil sobre o momento atual do M&A brasileiro não é a de retração, mas a de reorganização. O mercado está migrando de um modelo baseado em volume para um modelo baseado em qualidade de ativo, e essa mudança tende a se manter enquanto persistir o cenário de juros elevados e maior seletividade de capital.
Para empresas que avaliam buscar um comprador ou um sócio estratégico nos próximos meses, a lição prática é clara: negócios bem estruturados, com governança organizada e números auditáveis, seguem encontrando compradores dispostos a pagar mais por eles, mesmo em um mercado com menos transações fechadas.